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| Composing Mozart's Requiem |
Comecemos pelo aspecto mais óbvio: sua crescente animosidade contra os aristocratas da corte, que o tratavam como inferior. Pode ser que este tenha sido um fenômeno de gestação longa. O prodígio de origem relativamente humilde não poderia ter sido completamente poupado de algo que naquele tempo ocorria com naturalidade à maioria dos nobres da corte, como parte de seu repertório social: o tratamento condescendente, a humilhação do burguês.
O desagrado de Mozart com o tratamento altaneiro que lhe era conferido pelos nobres da corte aparece muito claramente nas cartas de seu período parisiense. Ele era obrigado a visita-los e a fazer o máximo para obter seus favores, pois estava procurando emprego e precisava da recomendação deles. Se nesta viagem ele não conseguisse uma posição, teria de voltar a Salzburgo, à família , ao pai - que tinha dado a maior parte do dinheiro para a viagem - e possivelmente ao príncipe-arcebispo que ditava o tipo de música que ele devia escrever e tocar. As condições em Salburgo era como uma prisão para ele. Por isso, em Paris era obrigado a fazer visitas cerimoniosas a senhoras e cavalheiros importantes, que o tratavam como ele era na realidade, um serviçal - se bem que não exatamente no mesmo tom que tratavam seus cocheiros. Afinal de contas, escrevia boa música. Mas Mozart sabia que a maioria, se não todos aqueles a que queria agradar, tinha apenas uma remotíssima noção de sua música, e nenhum reconhecia seu excepcional talento. (...)
E agora ele, que a seus próprios olhos nunca deixou de ser um prodígio, precisava ir de uma corte a outra implorando por um posto. É provável que não tinha previsto tal coisa. Suas cartas refletem um pouco deste desapontamento - e constrangimento.
Depois de Paris, parece ter tido cada vez mais a impressão de que não era apenas esta ou aquela corte aristocracia que o irritava e humilhava, mas que todo o mundo social em que vivia pretado. Até onde sabemos, Mozart não tinha interesse pelos ideais políticos ou humanitários gerais, mais abstratos. Seu protesto social expressava-se, no máximo, em comentários como:
"Você sabe muito bem que os melhores e mais verdadeiros amigos são os pobres. A riqueza não sabe o que significa a amizade."
Achava injusto o tratamento que recebia, irritou-se e lutou contra ele à sua maneira. Mas foi sempre uma luta muito pessoal. (...)
Norbert Elias - Mozart, a sociologia de um gênio.




