16.12.09

O sociólogo não deve esquecer que...



segundo a posição social do observador, certas facetas do real são percebidas como importantes, algumas como marginais ou acessórias, enquanto outras nem são percebidas:


O sociólogo tem a particularidade de ter como objeto campos de lutas: não só o campo das lutas de classes, mas também o próprio campo das lutas científicas. E o sociólogo ocupa uma posição nestas lutas, primeiro como detentor de um certo capital, econômico e cultural, no campo das classes; depois, como pesquisador dotado de um certo capital específico, no campo de produção cultural e, mais precisamente, no subcampo da sociologia. Isto, ele deve ter sempre em mente, para tentar dominar tudo aquilo que a sua prática, aquilo que vê e não vê, o que faz e o que não faz - por exemplo, os objetos que escolhe estudar - deve à sua posição social... Na verdade, parece-me que uma das principais causas de erro em sociologia reside numa relação não controlada com o objeto. Ou, mais extamente, na sua ignorância de tudo aquilo que a visão do objeto deve ao ponto de vista, isto é, à posição ocupada no espaço social e no campo científico. As chances que se tem de contribuir para produzir a verdade parecem-me, efetivamente, depender de dois fatores principais, que estão ligados à posição ocupada: o interesse que se tem em saber e em fazer saber a verdade (ou, inversamente, em oculta-la ou em ocultá-la para si mesmo) e a capacidade que se tem de produzi-la.

Pierre Bourdieu

9.12.09

"PSDB e mais um modelo de sua coleção"

6.12.09

Doctor Zhivago - 1965




Sergei: This Lenin - will he be the new Czar, then?

Kuril: Listen Daddy - no more Czars! No more masters! Only workers in a workers' state! How about that?!

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Excelente filme. Neste trecho em particular consegue capturar a confusão política na cabeça da população camponesa na Revolução Russa de 1917.

5.12.09

"nunca na história deste país..."

"(...) embora já esteja claro que a multidão permanece criança mas muda de tutor, dado que agora está confiada aos cuidados não mais dos notáveis e sim, cada vez mais, de um líder carismático dotado de "impulso oratório" e de uma "disposição natural para o público", que ele mais "excita" do que convence. Este líder não comunica conhecimentos: ele se mostra "seguro de que, se os outros soubessem o que ele sabe, sentiriam como ele sente e acreditariam como ele acredita; e, graças a isso, ele conquista" e chega a dispor de "um poder excepcional nas relações humanas", baseado na "fé", no "entusiasmo", na "confiança" que ele sabe transmitir (Bagehot, 1958, p.402 ss.)."

Democracia ou Bonapartismo - Domenico Losurdo

1.12.09

É de estarrecer.


Caros anônimos,

Minha nova leitura tem o título de "Democracia ou Bonapartismo". Seu escritor : Domenico Losurdo.

No primeiro capítulo desta obra o autor percorre a história, "atormentada e ainda não concluída", da luta pelo sufrágio universal.

E tenho que dizer :
esse livro deve ser um tormento dos mais atrozes aos liberais.

Losurdo não apenas denuncia os falsos "campeões da democracia" como Constant, Tocqueville, John Stuart Mill, John Locke, Sieyes, Burke e Mandeville como demonstra que a tradição liberal anda
pari passu com a discriminação censitária e a racionalização dos excluídos. De que como é equivocada a tese, ou melhor, o mito, do desenvolvimento espontâneo do liberalismo em direção à democracia (cara ao Bobbio, por sinal).

Leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema.

27.11.09

Do grego demokratía, -as, governo do povo.




Vamos deixar de xurumelas. Queremos falar de democracia (que convenhamos, está na ordem do dia).

Mas de que raio de democracia estamos falando afinal?
Hoje me parece que este conceito é tão estuprado diariamente que as vezes as pessoas se esquecem do que se trata. Convenhamos, não é a democracia dos gregos a qual estou me referindo (que de democracia como compreendemos hoje não tem absolutamente nada, a não ser o nome).


Para uma melhor análise sobre o conceito de democracia :
Democracia, de Décio Saes.

Neste pequeno livro introdutório sobre o tema o autor define e diferencia a democracia de acordo com o período histórico. Sendo assim, temos a democracia antiga (ou clássica), a democracia no período dos Estados pré-burgueses e, finalmente, a democracia burguesa.

Democracia burguesa.

Vale ressaltar a importância no adjetivo "burguesa". O autor define assim a democracia como forma do Estado burguês e a democracia como regime político burguês.

Como forma de Estado burguês, o autor quer dizer que "implica a presença de algum orgão de representação direta da classe exploradora no seio da organização estatal total, mas não se resume a isto. Para que haja democracia, em qualquer tipo histórico de Estado, é preciso também que tal orgão, quando existente, intervenha de fato no processo de definição e execução da política de Estado. "
Ou seja, se trata dos parlamentos, e mesmo que este abrigue representantes indicados pelo proletariado, a sua essência, seu funcionamento, é, em última instância, burguês.

Como Regime Político ressalta dois pontos, primeiro a "participação através de orgão de representação direta do processo de definição / execução da política do Estado" e que este Estado imprima "uma certa direção - seja ela aprovada ou não pelo corpo de funcionários ou pelo conjunto da classe exploradora" à sua política (de Estado).
Ou seja, trata-se aqui do calcanhar de Aquiles dos liberais, as tão estimadas liberdades políticas que, segundo Saes, "facultam aos membros de todas as classes sociais a organização partidária com vistas à indicação dos integrantes do Parlamento burguês."

Ressalta o autor, que estas liberdades são de fato, na democracia burguesa, formais, mas, por "formais", deve-se compreender que não são irreais e sim formalizadas em formas de leis.

Entretanto, o texto nos lembra bem que tais liberdades políticas particulares são limitadas pois não são igualmente usufruídas pelas diferentes classes sociais.

Como texto introdutório, sobre noções básicas de Democracia pautadas sobre uma perspectiva crítica, dialética, da luta de classes e suas relações com o Estado, pode ser muito bem aproveitado.

Deixo bem claro que a noção de Democracia sobre esta perspectiva é mais complexa, existe elementos que não foram citados, principalmente no que se refere as limitações desta nos dias de hoje.
Ao mesmo tempo que podemos perceber grandes saltos qualitativos desde a antiguidade, a democracia de hoje se mostra extremamente mais complexa, portanto exige um olhar mais atento, dialético.

Dialético, volto a frisar!

Afinal de contas, a democracia do papel funciona muito bem, mas para quem exatamente?

Para concluir, Bertold Brecht : Pergunte a cada idéia : - serves a quem?






Revenge is never a straight line.

"No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise."

Dante Alighieri