14.8.09

Do Capitalismo para o Digitalismo?


Será apenas uma nova "hype", como diria o "internetes" ou será que realmente há questões a se pensarem sobre o Digitalismo?

Afinal o que se trata?

Segue a introdução do heterodoxo livro retirado do blog que divulga "Do Capitalismo para o Digitalismo" :

"Mais de uma década depois de termos publicado “Do Socialismo Prematuro para o Socialismo do Futuro” (Vértice, 1990) retomamos o mesmo tema numa outra perspectiva.
Há doze anos a procura de uma explicação para a derrocada da experiência soviética, conduziu-nos a introduzir a questão da inexistência de condições, na URSS do princípio do século XX, para a emergência de um modo de produção [1] sucessor do Capitalismo. Mas, ao tratar da inexistência de uma base material adequada a tal emergência na URSS fomos quase forçados a tomar também posição sobre as implicações políticas do amadurecimento científico e tecnológico na parte final do século XX.

No essencial argumentámos, ao arrepio de muitas ideias feitas, que a revolução tecnológica do fim do século XX não constitui um “balão de oxigénio” para o Capitalismo mas sim um desafio tremendo.
O conceito de “trabalho não repetitivo” e o correlato desligamento do factor tempo das relações de produção bem como as implicações de um novo modo de produção embrionário, que doravante designaremos por Digitalismo, baseado na informação e sua representação digital, tratados então de forma muito geral e incompleta, deixaram no ar a necessidade de aprofundamento que nos leva agora a tentar avançar mais um degrau.

Decidimos incluir neste volume as notas biográficas dos autores porque as consideramos relevantes para a compreensão das teses expostas e para entender as experiências de vida subjacentes à sua gestação.
Também foi decidido incluir neste volume alguns textos dos autores que permitem compreender o surgimento e evolução, a partir dos anos oitenta, do essencial das teses agora apresentadas, a saber:

- “Do Socialismo Prematuro para o Socialismo do Futuro” - Publicado na Vértice em 1990 (Anexo 1)
- “Labor, Consumption, Data Processing and the Future” – Comunicação apresentada ao “IFIP 11th World Computer Congress” em S. Francisco, 1989 (Anexo 2)
- Comunicação apresentada ao XIII Congresso do PCP, Loures 1990 (Anexo 3)

Os autores fizeram percursos pouco comuns aonde coexistiram a militância política e sindical, o contacto com a inovação tecnológica e as vicissitudes da sua implementação prática, o trabalho como assalariados e os desafios da gestão empresarial. Tais percursos podem com certeza explicar o ineditismo de muitas das formulações presentes neste livro.

Dois aspectos marcaram, provavelmente mais do que quaisquer outros, as teses agora avançadas:
1. O trabalho, durante de dezenas de anos, integrando equipas de especialistas e quadros-técnicos
2. A experiência vivida de introdução de tecnologias digitais nas empresas na lógica do aumento da rentabilidade
No primeiro caso incluíram-se experiências de tipo sindical, quer a nível nacional quer internacional. Nomeadamente os autores participaram na criação e trabalhos da “IWIS – IBM Workers International Solidarity”, organização de âmbito mundial para a coordenação dos representantes dos empregados da IBM que, depois de um primeiro encontro em Lisboa em 1975, prosseguiu trabalhos em Atenas, Tóquio, Estugarda e Paris.
Também participaram nos trabalhos de coordenação, a nível nacional, das estruturas representativas dos trabalhadores dos grandes fornecedores de equipamentos informáticos.
Estas experiências levaram a um foco muito especial nas especificidades e motivações dos trabalhadores especializados e nas profissões baseadas em conhecimento.
As experiências associadas à introdução de tecnologia nas empresas, que tiveram lugar ao longo de mais de 25 anos, em dezenas de empresas de médio e grande porte, centraram-se quase sempre na questão de transformar as ferramentas digitais em instrumentos de produtividade e de competitividade das empresas.

Daqui resultou uma preocupação, que esperamos seja clara ao longo deste livro, de ligar as teorias políticas ao “mundo real” em que os trabalhadores efectivamente operam ultrapassando esquematismos e simplificações que tantas vezes distorcem a acção política e sindical.
Se nos reportarmos ao marxismo, que este livro claramente pretende reajustar, há que reformular todos aqueles aspectos que já não estão presentes na sociedade actual e enquadrar todos os aspectos novos que Marx não previu e que, à data em que viveu, não poderia de qualquer forma antecipar.

Não se trata de qualquer “traição” ao marxismo mas do seu aprofundamento; a história das ideias mostra que uma nova teoria não tem que negar as anteriores, pode apenas mostrar novos níveis ou desenvolvimentos que anteriormente não tinham sido equacionados. O que importa é que o objectivo de Marx, uma sociedade livre da exploração, se mantenha.
No processo de preparação deste livro temos sido objecto de críticas que têm como pressuposto, embora nunca explicitamente afirmado, o facto de nos “atrevermos” a pôr em causa Marx sem o favor abonatório de pelo menos alguns títulos universitários ou a passagem por cargos políticos de alguma projecção mediática.

Queremos deixar claro que não partimos de uma atitude académica para juntar mais um livro aos milhares de outros que têm sido escritos sobre todos os “pontos e vírgulas” da obra de Marx. A obra de Marx é, já de si, vasta; se lhe acrescentarmos essa torrente de obras complementares então temos algo que pode ser considerado inextrincável.
Este nosso depoimento é apenas uma tentativa de alguém que, pela sua experiência de vida, julga estar em boas condições para compreender os desajustamentos do marxismo à sociedade actual.
Em nossa modesta opinião o que falta nas posições dos marxistas, especialmente em Portugal, é a experiência vivida das situações que são supostos pretender transformar.

Se virmos bem, todas as lutas de classes e mesmo revoluções que se fizeram desde Marx basearam-se mais na visão intuitiva que as grandes massas possuem do que nas altas teorias que, em toda a sua extensão, nem os intelectuais realmente dominam.

Aquilo que os líderes revolucionários sempre têm feito é veicular sínteses mais ou menos simplificadas de maneira a poderem dar aos trabalhadores um enquadramento teórico mínimo para a sua intuição.

Quantos militantes políticos gastaram mais do que uma hora a ler, por exemplo, os textos do Capital ? E a reflectir sobre eles ?

De certa maneira, no plano prático da política, quase importa mais a crítica daquilo que as pessoas vivas têm na cabeça, quando falam de Marx, do que aquilo que ele realmente queria dizer.

Uma experiência interessante consistiu na leitura de versões preliminares do livro por jovens ligados a profissões tecnológicas ou actividades criativas e com opções ideológicas diversas; destacamos, por ser significativo, o comentário surgido várias vezes em que se considerava interessante equacionar a emergência do Digitalismo mas não se entendia a utilidade de, ao mesmo tempo, abordar a necessidade de reajustar o paradigma marxista ou sequer de utilizar o marxismo como referência.

Este tipo de comentários reforçou a nossa convicção de que, fossem quais fossem as intenções de Marx o que realmente conta é analisar aquilo que os trabalhadores de hoje conseguiram captar das suas ideias e tentar reajustá-lo caso isso se justifique [2].

Por tudo isto muitas discussões sobre fidelidade ao marxismo, sobre pureza teórica, são completamente absurdas.

Na preparação deste livro não se concretizou o famoso ditado “em casa de ferreiro, espeto de pau”. Na verdade grandes porções do texto foram sendo publicadas e discutidas na Internet, no fórum do www.dotecome.com. Agradecemos a todos que participaram nessas discussões.
Também agradecemos a Jorge Nascimento Rodrigues que nos autorizou a publicação dos textos incluídos no anexo 4.

Assim de alguma forma pode dizer-se que a tecnologia, de que tanto aqui falaremos, deu um importante contributo para este resultado. Importa portanto agradecer a todos aqueles que via Internet foram lendo e criticando o texto à medida que ele foi sendo produzido.

Terminamos esta introdução com uma síntese das principais teses que o livro defende:

a) o desenvolvimento da tecnologia está a criar condições para a emergência de um novo modo de produção, o Digitalismo, baseado na representação digital da informação e nas comunicações à escala mundial

b) um dos aspectos mais importantes dessa emergência é a modificação do trabalho: automatização do trabalho repetitivo (quer manual quer intelectual), preponderância do trabalho como manipulação de informação pelo conhecimento em vez de manipulação de materiais pela ferramenta

c) outro aspecto, consequência em grande parte do anterior, é a degradação do assalariamento, a relação de produção base do Capitalismo

d) a emergência de um novo modo de produção não significa necessariamente o fim da exploração; há já indícios de velhos senhores do Capitalismo e novos senhores emergentes a tomarem posições para controlar os novos meios de produção e o novo trabalho

e) cabe aos partidos progressistas analisar e compreender a emergência da nova “formação económica e social” [1], com novas “relações de produção” [1] a partir de um novo “modo de produção” [1] e de uma nova “base material” [1], para tentar condicioná-los

f) cada vez mais o valor das mercadorias se baseia, não no tempo de trabalho, mas no conhecimento nelas incorporado pelo trabalho

g) à luz desse facto, a Teoria Marxista do Valor [1] baseado no tempo de trabalho, e que se aplicava bem ao modo de produção capitalista na sua “pureza” inicial, deve ser reavaliada

h )há cada vez mais trabalhadores cujo modo de trabalho não se identifica com os modelos marxistas de salário [1] e valor baseados no preço dos meios de subsistência [1] e no tempo de trabalho, e que portanto não sentem que o projecto Comunista lhes diga respeito.

i) portanto, sem o reajustamento do paradigma marxista será muito difícil ganhar essas vastas camadas de trabalhadores para a transformação progressista da sociedade.

2 comentários:

  1. Esse lance do dogmatismo dos marxistas é sério. No tempo da URSS era pior. "Acho" que hoje tá se desfazendo, mas ainda estando presente em alguns pequenos setores da esquerda. Por isso eu gosto do José Paulo Netto, (putz, ainda preciso ler o “Marxismo impenitente” dele) que defende a ortodoxia em Marx apenas no seu "método", pois é nele que encontrarmos a flexibilidade pra analisar o capitalismo a todo instante. Já que ele (o capitalismo) é extremamente mutante ("o que era sagrado agora é profano","tudo que era sólido se desmancha no ar", etc), era necessário instrumento de análise da realidade social que fosse flexível o suficiente para abarcar essa metamorfoseação toda, que em nenhuma sociedade de classes anterior existiu.
    Ainda assim, atento para o item a) do resumo. O tal "digitalismo" é tratado como um novo "modo de produção". Parece academicismo o que vou dizer, mas é importante ter definições claras pra continuar o diálogo se não a gente pode se perder, como fazem muitos filósofos (http://www.modernaciencia.blogspot.com/). É que a análise de Marx dá a entender que o modo de produção capitalista é a última sociedade de classe que podemos ter. Porque nele a exploração se dá desnudada, diretamente. Antes isso não acontecia, havia elementos ideológicos demais intermediando o processo. No escravismo clássico, o escravo era escravo porque "não era cidadão". No feudalismo, o servo era servo porque "deus assim quis". No capitalismo todos sabemos que somos trabalhadores para manter o lucro da empresa. Mesmo se achamos que cidadania é uma bobagem (e de fato é), ou sabemos que deus é produto cultural humano e portanto não existe, mesmo assim temos que comer, e por isso, por essa razão diretamente ligada à materialidade da nossa condição temos que nos submeter ao trabalho gerenciado, assalariado. Sabemos que, se a empresa não lucra, ela quebra, e estaremos na rua. É por isso que não dá pra existir outros "ismos"; esgotaram-se as capas ideológicas que cobriam o trabalho explorado. Então isso tudo me estranha ao se falar em "digitalismo" como um outro modo de produção. Como uma nova fase interna na dinamização da produção capitalista tudo bem, é perfeito e merece uma análise aprofundada certamente. Mas como uma superação das atuais relações de produção, não vejo outra, a não ser o próprio fim da sociedade de classes.
    Mas eu também não conheço a obra, vai saber o que tem lá no meio né? ehehhehe

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  2. Cara Cintia

    Gostei muito de descobrir que você se interessou por nosso livro e se deu ao trabalho de transcrever a introdução.
    Tenho a humildade suficiente para saber que o tema é talvez demasiado complexo para as minhas capacidades mas achei que valia a pena divulgar um contributo que reputo original.
    Atrevo-me a sugerir um texto posterior, mais conciso, que talvez ajude a entender melhor o alcance do livro: "A metamorfose digital da mercadoria" em http://www.dotecome.com/politica/Textos/FR-mercadoria.htm

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