28.3.11

.os perigos da imaginação.


Johann Heinrich - O Fluxo
Se a carta tivesse perdido, se uma mão caridosa a houvesse jogado no fogo, a sorte desse mortal, feliz e desgraçado a um tempo teria sido, ao que me parece, um estranho problema. Sua desgraça, direis, era real. Certo, mas ele não a sentia. Onde estava ele então? Sua felicidade era imaginária. Entendo; a saúde, a alegria, o bem-estar, a satisfação de espírito não passam agora de visões. Não existimos mais onde nos encontramos, só existimos onde não estamos. Valerá a pena ter tão grande medo da morte se aquilo em que vivemos permanece?
Ó homem! Encerra tua existência dentro de ti e não serás mais miserável. Fica no lugar que a natureza te designa na cadeia dos seres, nada poderá arrancar-te dele; não te revoltes contra a dura lei da necessidade e não esgotes, querendo resistir-lhe, forças que o céu não te deu para prolongar tua existência e sim, tão-somente, para conservá-la como lhe agrada enquanto lhe agrada. Tua liberdade, teu poder só vão tão longe quanto tuas forças naturais, e não além; tudo mais não passa de escravidão, ilusão, prestígio. (...).
O único indivíduo que faz o que quer é aquele que não tem necessidade, para fazê-lo, de por os braços de outro na ponta dos seus; do que se depreende que o maior de todos os bens não é a autoridade e sim a liberdade. O homem realmente livre só quer o que pode e faz o que lhe apraz. Eis minha máxima fundamental. Trata-se apenas de aplicá-la à infância, e todas as regras da educação vão dela decorrer.
A sociedade fez o homem mais fraco, não somente lhe tirando o direito que tinha sobre as próprias forças, como também as tornando insuficientes.

Jean Jacques Rousseau - Emílio 

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