30.3.11

.regra e liberdade.


Com todo o cuidado com que o observei, não consegui encontrar nele nenhuma espécie de paixão senão a que tem por mim. Ainda assim, esta paixão é tão uniforme e tão temperada que dir-se-ia que ama tanto quanto quer amar e que só o quer tanto quanto a razão permite. É realmente o que Milorde Eduard pensa ser, no que o acho bem superior a todos nós, pessoas de sentimento que nos admiramos tanto a nós mesmos, pois o coração nos engana de mil maneiras e só age por um princípio sempre suspeito, mas a razão não tem outra finalidade a não ser o que é bem; suas regras são seguras, claras, fáceis na conduta da vida e nunca se perde a não ser nas inúteis especulações que não são feitas para ela.
O maior gosto do Sr. de Wolmar é o de observar. Gosta de julgar os caracteres dos homens e as ações que vê realizar. Julga-as com uma profunda sabedoria e a mais perfeita imparcialidade. (...).
A ordem que colocou em sua casa é a imagem da que reina no fundo de sua alma e parece imitar numa pequena administração caseira a ordem estabelecida no governo do mundo. Nela não vemos nem essa inflexível regularidade que traz mais incômodo do que vantagens e só é suportável para aquele que a impõe, nem essa confusão mal concebida que, por ter demais, retira o uso de tudo. Nela reconhece-se sempre a mão do dono e ela nunca é sentida; organizou tão bem a primeira disposição que agora tudo flui naturalmente e que se goza ao mesmo tempo da regra e da liberdade.

Jean Jacques Rousseau - A nova Heloísa


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