18.8.11

a humilhação do burguês.

Composing Mozart's Requiem
Comecemos pelo aspecto mais óbvio: sua crescente animosidade contra os aristocratas da corte, que o tratavam como inferior. Pode ser que este tenha sido um fenômeno de gestação longa. O prodígio de origem relativamente humilde não poderia ter sido completamente poupado de algo que naquele tempo ocorria com naturalidade à maioria dos nobres da corte, como parte de seu repertório social: o tratamento condescendente, a humilhação do burguês.
O desagrado de Mozart com o tratamento altaneiro que lhe era conferido pelos nobres da corte aparece muito claramente nas cartas de seu período parisiense. Ele era obrigado a visita-los e a fazer o máximo para obter seus favores, pois estava procurando emprego e precisava da recomendação deles. Se nesta viagem ele não conseguisse uma posição, teria de voltar a Salzburgo, à família , ao pai - que tinha dado a maior parte do dinheiro para a viagem - e possivelmente ao príncipe-arcebispo que ditava o tipo de música que ele devia escrever e tocar. As condições em Salburgo era como uma prisão para ele. Por isso, em Paris era obrigado a fazer visitas cerimoniosas a senhoras e cavalheiros importantes, que o tratavam como ele era na realidade, um serviçal - se bem que não exatamente no mesmo tom que tratavam seus cocheiros. Afinal de contas, escrevia boa música. Mas Mozart sabia que a maioria, se não todos aqueles a que queria agradar, tinha apenas uma remotíssima noção de sua música, e nenhum reconhecia seu excepcional talento. (...)

E agora ele, que a seus próprios olhos nunca deixou de ser um prodígio, precisava ir de uma corte a outra implorando por um posto. É provável que não tinha previsto tal coisa. Suas cartas refletem um pouco deste desapontamento - e constrangimento.

Depois de Paris, parece ter tido cada vez mais a impressão de que não era apenas esta ou aquela corte aristocracia que o irritava e humilhava, mas que todo o mundo social em que vivia pretado. Até onde sabemos, Mozart não tinha interesse pelos ideais políticos ou humanitários gerais, mais abstratos. Seu protesto social expressava-se, no máximo, em comentários como:

"Você sabe muito bem que os melhores e mais verdadeiros amigos são os pobres. A riqueza não sabe o que significa a amizade."


Achava injusto o tratamento que recebia, irritou-se e lutou contra ele à sua maneira. Mas foi sempre uma luta muito pessoal. (...)

Norbert Elias - Mozart, a sociologia de um gênio.

16.8.11

A Sociologia de um Gênio

Leopold Mozart, serviçal de príncipes e burguês de corte, não apenas educou musicalmente o jovem Wolfgang nos termos do gosto cortesão, como também buscou conformar seu comportamento e sentimentos ao padrão da corte. No que se refere à tradição musical, foi muito bem-sucedido. Mas, quanto ao comportamento e aos sentimentos, sua tentativa de fazer dele um homem do mundo fracassou miseravelmente. Tentou ensinar-lhe a arte da diplomacia de corte, a bajulação através dos circunlóquios adequados, e conseguiu o oposto. Wolfgang Mozart continuou tendo um comportamento totalmente franco e direto; assim como mostrava uma imensa espontaneidade de sentimento em sua música, era extraordinariamente rude em sua conduta pessoal. Não conseguia esconder o que sentia, nem mostra-lo de forma insinuante, e detestava qualquer forma de relação humana que forçasse a usar circunlóquios e eufemismos, a fazer rodeios. Embora tivesse crescido à margem de uma pequena corte e mais tarde tivesse viajado de uma corte para outra, jamais adquiriu a polidez especial do cortesão; nunca se tornou um homem do mundo, um homme du monde, um cavalheiro, no sentido que tinha esse termo no século XVIII.

Norbert Elias, A Sociologia de um Gênio.

7.7.11

quando o remédio é ainda pior que o mal suposto para curar

Os movimentos autocráticos, que se expressam revolucionariamente*, impedem que o núcleo constituinte se expanda, limitando e inibindo as condições de sua realização, nomeadamente com  supressão das liberdades, além do período da tomada de poder. A liberdade de expressão e de reunião são tidas como subversivas, o que nega, na busca do consenso, a igualdade de oportunidades às correntes dissidentes ou minoritárias. O plebiscito é, em regra, o meio adequado para consagrar esse congelamento ditatorial, recurso ao qual se equipara a reforma ou emenda constitucional ou leis de emergência, por obra de parlamentos expurgados ou eleitos em condições restritivas, exatamente como aconteceu na Alemanha hitlerista e na Italia de Mussolini. Esse foi o caso também da União Soviética, que, depois de vitoriosa a revolução comunista, dissolveu a assembléia constituinte, sem, de imediato, convocar outra, fato que levou Rosa de Luxemburgo a denuncia a origem de uma autocracia, prevendo o stalinismo. "Eles (Lênin e Troskty)" - escreveu a atualíssima líder socialista - "não queriam, não podiam confiar a sorte da revolução a uma assembléia que representava a Rússia contemporânea de Kerensky, o período de oscilação e de ligação com a burguesia. Bom! Só restava convocar logo, em seu lugar, uma assembléia saída da Russia renovada, e sem lhe conhecer as dificuldades. Ao invés disso, Trostky concluiu, devido à insuficiência  especial da assembléia constituinte em outubro, pela superfluidade de todas as assembleias constituintes; ou melhor; ele generaliza até negar valor de qualquer representação nacional saída das eleições populares durante a revolução." "Mas o remédio" - prossegue um passo adiante - "inventado por Lênin e Trotsky, a supressão da democracia em geral, é ainda pior do que o mal suposto para curar; de fato, obstrui a fonte viva, a única donde podem surgir correções para todas as insuficiencias congênitas das instituições sociais: a vida política ativa sem entraves, energética, das mais extensas massas da nação". Quanto à restrição da liberdade, sua crítica não é menos certeira: "A liberdade reservada apenas aos partidários de um partido - fossem eles tão numerosos como se deseja - não é liberdade. Liberdade é sempre a liberdade daquele que pensa de modo contrário."


Raymundo Faoro - Assembléia Constituinte a legitimidade recuperada


* Os golpistas de 64 se autoproclamavam como revolucionários.

7.6.11

Pessoalidade é coisa do passado! Temos o facebook, twitter ! As redes "sociais"!

"E hoje parece haver a necessidade de se publicizar o que é da ordem do privado. Vivemos o espetáculo da midiatização da intimidade, como se as relações só fossem válidas se expostas ao domínio público."



Hélio Deliberador

Professor do Departamento de Psicologia Social da PUC-SP e pró-reitor de Cultura e Relações Comunitárias

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Narcisismo levado às últimas conseqüências !

6.6.11

O que não é novidade.



“Os limites do aumento da arrecadação tributária criavam uma situação dramática para o setor público. A continuação dos favores fiscais confirmava o caráter clientelístico e privado de atuação do Estado.” 

João Rezende - Reforma e Política Tributária


“O ano de 1987 mostrou com grande nitidez este processo, posto que é nos momentos de recessão econômica que os agentes privados, frente aos problemas de mercado, mais recorrem aos cofres públicos.” 

Oliveira, F.A. e Júnior, G.B. - Política Fiscal: Crise Aberta

20.5.11

- Discordo da posição do Sr. Maquiavel...

Quanto a mim, diria Immamuel Kant, considero inevitável e necessária a complementaridade da moral e da política.

"Posso pensar, sem dúvida, um político moral, isto é, um homem que assume os princípios da prudência política de um modo tal que possam coexistir com a moral, mas não posso pensar um moralista político, que forja uma moral útil às conveniências do homem de Estado.
O político moral formulará para si este princípio: se alguma vez na constituição de um Estado ou nas relações entre Estados se encontrarem defeitos que não foi possível impedir, é um dever, sobretudo para os chefes de Estado, refletir o modo como eles se poderiam, logo que possível, corrigir e coadunar-se com o direito natural, tal como ele se oferece aos nossos olhos como modelo na idéia da razão, mesmo que tenha de custar o sacrifício do amor-próprio" 

A paz perpétua, Kant.


23.4.11

doses homeopáticas de filosofia - o realismo

Jean Francois Millet - The Gleaners
Dizem os realistas que a espécie humana varia de indivíduo para indivíduo, e que cada homem não é mais hoje o que foi ontem. Não existe uma igualdade biopsíquica entre os indivíduos, visto como todos são diferentes quanto às suas qualidades físicas ou às aptidões psíquicas. Ora, se todos os homens são diversos, mas chegam à mesma afirmação a respeito de "algo" percebido, é porque existem em "algo" elementos estáveis, não subordinados às variações subjetivas. Se o sujeito fosse fator "determinante" daquilo que se conhece, haveria uma percepção distinta para cada sujeito e não seria possível haver  ciência, nem comunicação de ciência. Se existe intersubjetividade dos objetos da percepção e uma ciência comum entre os homens, ciência esta que uma geração transmite às outras, é porque existe um elemento real que as percepções "reproduzem", parcial ou totalmente, sendo dotado de qualidades que não se subordinam ao esquema deste ou daquele outro indivíduo, ou à subjetividade em geral.

Introdução à Filosofia, Miguel Reale

31.3.11

"ouso quase assegurar"

A extrema desigualdade na maneira de viver; o excesso de ociosidade de uns; o excesso de trabalho de outros; a facilidade de irritar e de satisfazer nossos apetites e nessa sensualidade; os alimentos muito rebuscados dos ricos, que os nutrem com sucos abrasadores e que determinam tantas indigestões; a má alimentação dos pobres, que frequentemente lhes falta e cuja carência faz que sobrecarreguem, quando possível, avidamente seu estômago; as vigílias, os excessos de toda sorte; os transportes imoderados de todas as paixões; as fadigas e o esgotamento do espírito, as tristezas e os trabalhos sem-número pelos quais as almas são perpetuamente corroídas - são, todos, indícios funestos de que a maioria de nossos males é obra nossa e que teriamos evitado quase todos se tivéssemos conservado a maneira simples, uniforme e solitária de viver prescrita pela natureza. Se ela nos destinou a sermos sãos, ouso quase assegurar que o estado de reflexão é um estado contrário à natureza e que o homem que medita é um animal depravado.

Jean Jacques Rousseau - Discurso sobre a seguinte questão, proposta pela academia de Dijon: Qual é a origem da desigualdade entre os homens, e é ela autorizada pela Lei Natural?

30.3.11

.regra e liberdade.


Com todo o cuidado com que o observei, não consegui encontrar nele nenhuma espécie de paixão senão a que tem por mim. Ainda assim, esta paixão é tão uniforme e tão temperada que dir-se-ia que ama tanto quanto quer amar e que só o quer tanto quanto a razão permite. É realmente o que Milorde Eduard pensa ser, no que o acho bem superior a todos nós, pessoas de sentimento que nos admiramos tanto a nós mesmos, pois o coração nos engana de mil maneiras e só age por um princípio sempre suspeito, mas a razão não tem outra finalidade a não ser o que é bem; suas regras são seguras, claras, fáceis na conduta da vida e nunca se perde a não ser nas inúteis especulações que não são feitas para ela.
O maior gosto do Sr. de Wolmar é o de observar. Gosta de julgar os caracteres dos homens e as ações que vê realizar. Julga-as com uma profunda sabedoria e a mais perfeita imparcialidade. (...).
A ordem que colocou em sua casa é a imagem da que reina no fundo de sua alma e parece imitar numa pequena administração caseira a ordem estabelecida no governo do mundo. Nela não vemos nem essa inflexível regularidade que traz mais incômodo do que vantagens e só é suportável para aquele que a impõe, nem essa confusão mal concebida que, por ter demais, retira o uso de tudo. Nela reconhece-se sempre a mão do dono e ela nunca é sentida; organizou tão bem a primeira disposição que agora tudo flui naturalmente e que se goza ao mesmo tempo da regra e da liberdade.

Jean Jacques Rousseau - A nova Heloísa


28.3.11

.os perigos da imaginação.


Johann Heinrich - O Fluxo
Se a carta tivesse perdido, se uma mão caridosa a houvesse jogado no fogo, a sorte desse mortal, feliz e desgraçado a um tempo teria sido, ao que me parece, um estranho problema. Sua desgraça, direis, era real. Certo, mas ele não a sentia. Onde estava ele então? Sua felicidade era imaginária. Entendo; a saúde, a alegria, o bem-estar, a satisfação de espírito não passam agora de visões. Não existimos mais onde nos encontramos, só existimos onde não estamos. Valerá a pena ter tão grande medo da morte se aquilo em que vivemos permanece?
Ó homem! Encerra tua existência dentro de ti e não serás mais miserável. Fica no lugar que a natureza te designa na cadeia dos seres, nada poderá arrancar-te dele; não te revoltes contra a dura lei da necessidade e não esgotes, querendo resistir-lhe, forças que o céu não te deu para prolongar tua existência e sim, tão-somente, para conservá-la como lhe agrada enquanto lhe agrada. Tua liberdade, teu poder só vão tão longe quanto tuas forças naturais, e não além; tudo mais não passa de escravidão, ilusão, prestígio. (...).
O único indivíduo que faz o que quer é aquele que não tem necessidade, para fazê-lo, de por os braços de outro na ponta dos seus; do que se depreende que o maior de todos os bens não é a autoridade e sim a liberdade. O homem realmente livre só quer o que pode e faz o que lhe apraz. Eis minha máxima fundamental. Trata-se apenas de aplicá-la à infância, e todas as regras da educação vão dela decorrer.
A sociedade fez o homem mais fraco, não somente lhe tirando o direito que tinha sobre as próprias forças, como também as tornando insuficientes.

Jean Jacques Rousseau - Emílio 

23.3.11

Über Lesen und Bucher


Livros são escritos sobre este ou aquele grande espírito da Antiguidade e o público os lê, mas não lê as próprias obras; isto porque quer ler apenas o que acaba de ser publicado e, já que similis simili gaudet [Os semelhantes se atraem], para ele o vazio e insípido dis-que-diz das cabeças de vento de hoje é mais adequado e agradável do que os pensamentos de um grande espírito. Eu, porém, agradeço o destino que me apresentou ainda na juventude o belo epigrama de A. W. Schlegel, que, desde então, é minha estrela-guia:
Leia os antigos com cuidado, os antigos de verdade.
O que os novos dizem deles quase nada significa
.

Ah, como uma cabeça ordinária se parece com outra! Como são fundidas em um único molde! Como lhes ocorre o mesmo pensamento, e nada mais, nas mesmas circunstâncias! Juntam-se a isto ainda seus sórdidos interesses pessoais. O diz-que-diz sem sentido de tais anões é lido por um público estúpido desde que tenha sido impresso hoje, enquanto os grandes espíritos são deixados nas estantes.

Arthur Schopenhauer - Parerga e Paralipomena 

21.3.11

o mal estar acadêmico.


Arthur Schopenhauer

"Nenhuma qualidade literária como, por exemplo, força de persuasão, riqueza de imagens, dom de comparação, audácia, ou amargor, ou brevidade, ou graça, ou leveza de expressão, ou ainda agudeza, contrastes surpreendentes, laconismo, ingenuidade etc., podemos adquirir lendo autores que as possuam. O que podemos é, através deles, despertar em nós tais qualidades no caso de já as possuirmos como inclinação, quer dizer em potentia, trazê-las à consciência, podemos ver tudo o que se pode fazer com elas, podemos ser fortalecidos nessa inclinação, na coragem de usá-las, podemos julgar o funcionamento de seu uso pelos exemplos e, assim, podemos aprender seu uso correto; em todo caso é só depois disto que as possuímos também em actu. Esta é a única maneira de a leitura educar-nos para escrever, na medida em que nos ensina o uso que podemos fazer de nossos dons naturais; sempre na suposição de que esses dons existam. Sem eles, no entanto, não aprendemos com a leitura nada além de um maneirismo frio, morto, e nos tornamos imitadores superficiais."
Parerga e Paralipomena

20.3.11

that's life !

“Lembro-me ainda de outros desses comentários jocosos,os quais, no entanto, não tenho coragem de relatar. Provindos de uma boca bonita e na vida real, eles são perfeitamente admissíveis,mas em preto e branco já nem a mim agradam. Ademais, a ousadia insolente tem por particularidade o fato de proporcionar alegria somente no momento em que ocorre e devido ao espanto que causa; se narrada, porém, ela nos parece ofensiva e repugnante.”

Goethe

19.3.11

realismo ou pessimismo?

A imaginação, com o vôo
ousado, aspira a princípio à
eternidade...Depois um pequeno
espaço basta em breve para os destroços
de nossas esperanças iludidas!...

Goethe


“O renascimento que me transforma de dentro para fora segue seu curso. Por certo, eu acreditava que fosse aprender de verdade aqui; mas não pensei que fosse ter de voltar à escola primária, que precisaria desaprender, ou verdadeiramente reaprender tanto. Disso já me encontro agora convencido, tendo-me entregado por completo a esse aprendizado e quanto mais me vejo obrigado a negar a mim mesmo, tanto mais me alegro. Sou como um arquiteto que, desejando construir uma torre, escolhe uma fundação ruim; a tempo, apercebe-se disso e demole o quanto já erguera; busca, então, ampliar e aperfeiçoar seu projeto, dar-lhe alicerces mais seguros e compraz-se já, de antemão, da indubitável solidez da futura construção. Conceda-me o céu que, quando do meu retorno, também as conseqüências morais resultante desta minha vida num mundo mais amplo se façam sentir, pois, justamente com a percepção para a arte, também o meu senso moral vem passando por grande renovação.”

17.3.11

As três irmãs do poeta


É Noite! as sombras correm nebulosas.
Vão três pálidas virgens silenciosas
Através da procela irrequieta.
Vão três pálidas virgens... vão sombrias
Rindo colar num beijo as bocas frias...


Na fronte cismadora do Poeta:
"Saúde, irmão! Eu sou a Indiferença.
Sou eu quem te sepulta a idéia imensa,
Quem no teu nome a escuridão projeta...

Fui eu que te vesti do meu sudário...
Que vais fazer tão triste e solitário?..."


- "Eu lutarei!" - responde-lhe o Poeta.
"Saúde, meu irmão! Eu sou a Fome.
Sou eu quem o teu negro pão consome...

O teu mísero pão, mísero atleta!
Hoje, amanhã, depois... depois (qu'importa?)
Virei sempre sentar-me à tua porta..."


-"Eu sofrerei"-responde-lhe o Poeta.
"Saúde, meu irmão! Eu sou a Morte.
Suspende em meio o hino augusto e forte.

Marquei-te a fronte, mísero profeta!
Volve ao nada! Não sentes neste enleio
Teu cântico gelar-se no meu seio?!"
-"Eu cantarei no céu" - diz-lhe o Poeta!


Castro Alves - Espumas Flutuantes

8.3.11


"As posições de ultra-esquerda tem dificuldade para compreender as derrotas, as regressões, as mudanças negativas nas relações de força. Tendem a reduzir as análises e os diagnósticos a teses de "traição" das direções, para as quais costumam encontrar confirmações na quantidade de casos de direções que se burocratizaram, se corromperam e renegaram ideais e plataformas. Mas os balanços críticos que não levam a alternativas, tampouco conseguem construir força de massa para suas teses, acabam fazendo parte da derrota, pois não se convertem em soluções."

Emir Sader

27.2.11

.immensities.


Deixo a cada golpe meu sangue se inflamar, a cólera e a indignação se apoderam de meus sentidos; cedo à natureza essa primeira explosão que nem todas as minhas forças juntas poderiam parar ou suspender. Trato apenas de interromper sua continuação antes que produzam algum efeito. Os olhos faiscantes, o ardor do rosto, o tremor dos membros, as sufocantes palpitações, tudo isso diz respeito ao físico, e a razão nada pode; contudo, depois de deixar ao natural essa primeira explosão acontecer, podemos voltar a ser nossos próprios mestres, retomando pouco a pouco nossos sentidos; é o que tratei de fazer por muito tempo sem sucesso, mas por sim com mais acerto. E cessando de empregar minha força em resistências vãs, aguardo o momento de vencer deixando minha razão agir, pois ela só fala comigo quando pode se fazer ouvir (...)

Tudo decorre de um temperamento versátil que é agitado por um vento impetuoso, mas que volta à calma assim que o vento para de soprar. É minha natureza inflamada que me agira, é minha natureza indolente que me apazigua. Cedo a todos os impulsos existentes; todo choque provoca em mim um momento intenso e breve; assim que cessa o choque, o movimento cessa, e nada que passou pode se prolongar em mim. Todos os acontecimentos do acaso, todas as máquinas da humanidade tem pouco poder sobre um homem assim constituído.

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Jean Jacques Rousseau

12.11.10

.de la mancha.


"O seu nome é Dulcinéia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha; a sua qualidade há de ser, pelo menos, Princesa, pois é Rainha e senhora minha; sua formosura sobre-humana, pois nela se realizam todos os impossíveis e quiméricos tributos de formosura, que os poetas dão às suas damas; seus cabelos são ouro; a sua testa campos elíseos; suas sobrancelhas arcos celestes; seus olhos sóis; suas faces rosas; seus lábios corais; pérolas os seus dentes; alabastro o seu colo; mármore o seu peito; marfim as suas mãos, sua brancura neve; e as partes que à vista humana traz encobertas a honestidade são tais (segundo eu conjeturo) que só a discreta consideração pode encarecê-las, sem poder compará-las."

2.11.10

si lon ne fait pas d'omelette avant


O capitão Jonathan estando com a idade de dezoito anos,
captura um dia um pelicano numa ilha do Extremo Oriente.
O pelicano de Jonathan,
de manhã, põe um ovo inteiramente branco.
E daí sai um pelicano espantosamente parecido com ele.
E esse segundo pelicano
por sua vez põe um ovo inteiramente branco
De onde sai, inevitavelmente,
Um outro que faz o mesmo.
Isso pode persistir por muito tempo
Se antes não fizermos um omelete.

Robert Desnos
Chantefleurs, Chantefables

27.10.10

não é de ser prática.


O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade.

Fernando Pessoa